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Jovem Leitor

Cristine Baptista

Cristine Baptista é formada em literatura infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de livros para o segmento desde 1993. Durante sete anos, ela manteve uma escola de literatura para crianças e jovens em Valença, a Imaginarte. Com formação acadêmica no assunto, experiência adquirida nas atividades da escola de literatura e a natural vocação para escrever, Cristine trafega com desenvoltura pelos temas infantis e juvenis.

Como é o seu processo criativo?

O livro surge sempre de uma inspiração real, seja do convívio com minhas filhas, com as amigas delas ou um fato que observo e acho interessante para desenvolver. Muitos temas surgiram também nas atividades da escola de literatura. Quando me formei em literatura infantil, montei uma escola de leitura para crianças em Valença, pois morava lá. O nome da escola era Imaginarte e o projeto durou sete anos. Tínhamos alunos de 3 a 15 anos, o que nos fazia abordar temas bem abrangentes para dar conta da grande diferença na faixa etária. Escrevo desde 1993. São 15 anos nos quais a inspiração sempre veio do relacionamento com as próprias crianças e jovens.

É muito diferente escrever livros para crianças e para adolescentes?

No processo criativo não existe diferença nenhuma. O que muda é o tema e a linguagem, que vão se adequar àquela faixa etária. Muda a profundidade com que posso enfocar o tema escolhido e o tipo de vocabulário. No caso do trabalho da editora, muda também o tratamento gráfico dos originais.

Você prefere escrever para crianças ou adolescentes?

Atualmente prefiro livros para adolescentes. Isso foi mudando com o tempo. Eu gostava muito de escrever para crianças, mas conforme as crianças ao meu redor foram crescendo, eu enxerguei a possibilidade de abordar temas diferentes com mais profundidade. Para a criança você também pode abordar temas profundos, cada uma vai absorver de acordo com a sua maturidade e vivências. Mas, atualmente eu prefiro escrever para adolescentes, até mesmo porque essa fase da vida está mais próxima de mim do que a infância e minhas filhas também cresceram.

Em relação ao “Próxima Parada”, qual foi a sua inspiração? Como aconteceu?

É um tema polêmico. Eu sabia que levantaria debates e com certeza isso seria bom para a formação dos jovens. Existiu uma pessoa, que eu sabia que era usuário de drogas e que se propôs a me ajudar, conversar abertamente sobre o tema, contar a sua experiência, a sua vivência do vício. Além disso, eu li muito sobre o assunto – livros e artigos - e entrevistei médicos e terapeutas para conhecer bem o tema.

Como foi o seu primeiro contato com esse jovem?

Eu já o conhecia de Valença e pedi abertamente para que participasse. Ele aceitou e me ajudou muito. Ele contou sua história sem constrangimentos, até porque é uma pessoa que venceu o vício, isso também foi bom para mostrar que é possível superar este problema e recomeçar. Quando eu o procurei, ele já tinha superado as drogas, estava voltando de uma internação e estava bem.

Qual a importância que o livro teve na vida do seu “personagem”?

Creio que muita. O jovem sempre foi muito participativo e entendeu a relevância do projeto. Ele participou de diversas palestras sobre o livro, ele enxergou a importância de abordar esse tema tão atual e tão difícil como forma de prevenir o envolvimento de jovens com as drogas. Foram muitas palestras em escolas do Rio de Janeiro e Petrópolis e também na Bienal do Livro. O assunto é muito polêmico e continua muito atual.

Além dele, você conversou com outros jovens usuários?

Sim. Ele foi a inspiração central do livro, quem mais auxiliou no processo criativo, porque não teve medo de se abrir. Mas eu também conversei com outros adolescentes que eram conhecidos dele, mas preferiram ficar no anonimato.

Como abordar um tema polêmico que pode gerar tanta repercussão? Em algum momento esta perspectiva inibe o autor ou interfere no processo criativo?

A melhor forma de abordar temas difíceis é garantir simplicidade e objetividade na maneira de escrever. Se o objetivo é atingir a cabeça dos adolescentes, então, escreva com verdade e de forma clara. É óbvio que a história será romanceada, mas de maneira bem simples, com a linguagem adequada ao público jovem, não pode parecer científico, tem que ser como uma conversa franca e de fácil compreensão, como se fosse um bate-papo entre amigos.

E a coleção infantil da Kica Futrica?

Esse foi meu primeiro livro de ficção. A Kica surgiu da idéia de uma criança criativa e interessante. Quando apresentei na editora, eles pediram que virasse uma coleção. Logo no segundo volume da Kica, ela contracena com o Menino Maluquinho. Liguei para o Ziraldo, que não me conhecia, e falei que gostaria de apresentar para ele minha personagem e que adoraria se ela contracenasse com o personagem dele. Porque, apesar da Kica não ser inspirada no Menino Maluquinho, os dois tem muitas afinidades. Fui consultá-lo na cara e na coragem e o Ziraldo foi muito gentil, disse que gostou da minha maneira de escrever para crianças pequenas e me cedeu o Menino Maluquinho, sem me cobrar nada. A única exigência era ler o texto e verificar as ilustrações. O terceiro volume da Kica veio de uma viagem que eu fiz para a Itália e achei que seria interessante abordar a existência de um mundo enorme lá fora, outras línguas, outras países. Essa curiosidade combinava com a minha pequena personagem.

E o “Isabela no Reino da Fantasia”?

Esse livro surgiu numa época em que eu queria muito divulgar o prazer e a necessidade da leitura como um incentivo à construção do vocabulário e à formação de um pensamento crítico. Não podemos ser meros receptores de informação. Então, nesse livro relato a experiência de alguém que acaba de começar a ler e o quanto isso lhe abriu as portas de um novo mundo. Quem sabe ler pensa melhor, raciocina melhor e se insere melhor no mundo em que vive.

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